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Mistérios, mentiras & modas

Mistérios, mentiras & modas

26
Fev21

Sim, tive covid-19 mas não sou diferente de ti

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Pois bem, o ano de 2020 estava a correr bem, quer dizer, estávamos no meio de uma pandemia, mas no geral não me podia queixar, o vírus (ainda) não me tinha apanhado, por isso alguma coisa eu estava a fazer bem.

Infelizmente, as coisas não correm sempre como queremos e após haver um surto na empresa do meu marido (motorista), rapidamente soube que também estava positiva.

Mas vamos por partes, porque ele soube que estava positivo no dia 31 de dezembro às 23h30, ou seja, meia-hora antes da festa de ano novo, felizmente estávamos apenas nós em casa.

No início dessa semana, um colega dele ligou-lhe a dizer que estava outro infetado. Ficámos logo em alerta, mas a empresa dele não ligou muito após terem conhecimento dessa situação. 

Obviamente para eles a empresa não podia fechar e se apareceu um  caso, seria só um?

Após várias reclamações dos trabalhadores, lá deram uma folha do seguro de saúde, para quem quissesse fazer o teste à covid-19.

Passou-se a segunda, terça e quarta. Neste último, o meu marido pede que eu lhe marque um teste. Só consegui marcar para o dia seguinte, o dia 31 de dezembro de 2020.

Ele sentia-se bem, eu sentia-me bem, mas estávamos os dois apreensivos. Já estávamos em casa de máscara com algum receio de um de nós já estar infetados. Os nosso dois filhos ficaram longe de nós a partir do momento que ele fez o teste.

Lembro-me de ir com ele fazer o teste, pelo caminho disse-me "eu acho que estou positivo", caiu-me tudo! Como é que ele podia dizer isto? Ele estava bem, eu estava bem, como?

A verdade é que ele não me tinha dito que já estava com dores de cabeça, dores no corpo e má disposição.

Mas acreditem, eu tive sempre esperança até termos recebido aquele teste às 23h30, véspera de ano novo.

O teste positivo

Quando ele diz: "recebi o mail, estou positivo", eu não queria acreditar, tive de ver com os meus olhos, foi a primeira vez que vi um teste à covid.

Ali estava a prova, não havia como fugir, ele estava mesmo infetado e a seguir faltava saber se eu e os meus 2 filhos também tínhamos o vírus ou não.

Como devem calcular os minutos seguintes foi ligar para a saúde 24, no meu caso foi super rápido, e falar com eles sobre a situação que acabou de acontecer. Um dos meus filhos tem asma e a minha preocupação aumentava.

Uma mãe pode estar a sofrer, mas tem de manter a calma pelos seus filhos e preparar as armas para combater seja o que for.

A saúde 24 enviou logo os códigos para fazermos o teste. Enquanto isso era meia-noite, mas eu não conseguia celebrar. Não desta vez.

Feliz Ano Novo... não para mim...

Normalmente à meia noite ligo para os meus pais e a minha irmã. Falei primeiro com ela, achei que ela ia entender melhor o que eu tinha de lhe dizer.

Ela fez algumas perguntas e acusações: "o teu marido não teve consciência"... Ena, esta doeu.

O meu marido estava a trabalhar, ele sempre trabalhou desde que começou a pandemia, obviamente ele não teve culpa. Houve um surto no local de trabalho.

A questão é que uma pessoa já está em baixo com a situação e ainda nos puxam mais para baixo, mesmo até ao fundo.

Não vale a pena.

Depois falei com a minha mãe, pronto foi aqui que tudo parou, começámos as duas a chorar ao telefone, sem dizer uma palavra uma a outra, apenas a soluçar.

Ela disse "vai correr tudo bem" e eu disse um "sim", muito tímido.

Não sabíamos mais o que dizer uma a outra, mas eu sabia que ela estava ali e tenho muita sorte por isso.

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O dia seguinte ao teste positivo do marido

Claro que não dormi nada na noite do dia 31 de dezembro de 2020 para 1 de janeiro de 202, fiquei na sala, porque não sabia se estava infetada ou não.

Em casa, todos de máscara e com desinfetante, marido isolado no quarto que tem casa de banho.

Logo de manhã, comecei a procurar lugares onde fazem o teste, mas não e encontrei nada aberto, só via "domingos e feriados fechado". Portanto tivemos de aguentar mais um dia e uma noite sem saber resultados de testes.

No sábado de manhã voltei à luta e encontrei uma clínica aberta, liguei para lá logo às 9h da manhã.

Atendeu-me uma senhora muito simpática, após contar-lhe a nossa situação, perguntou-me se conseguia estar lá às 10h e eu disse claro que sim.

Acordei os meus filhos e disse para se vestirem depressa "vamos fazer o teste à covid".

O teste à covid-19

Eu percebi que os meus filhos estavam um pouco nervosos, o mais velho quis ir primeiro.

Como éramos uma família, pudemos entrar os 3 na clínica que parecia um quarto, uma entrada com um balcão com desinfetante, uma folha para confirmar os dados e principalmente e-mail e depois tínhamos de assinar.

Quando o meu filho saiu do espaço onde fez o teste, vinha a sangrar do nariz, ele sempre foi muito sensível nessa parte da cara. Dei-lhe a chaves do carro e disse-lhe para esperar lá por mim. Eu sabia que ele queria sair dali o mais depressa possível.

Depois foi a vez da minha filha mais nova, ela é que pediu para ir a seguir, foi e veio em segundos. Perguntei-lhe se queria ir ter com o mano e ela disse que sim.

Agora sim, era a minha vez, a minha primeira vez.

Pronto, afinal estava mais nervosa do que pensava, mas ainda bem, não vale a pena pensar muito, é só seguir as instruções.

Fui para a zona do teste e estava lá uma senhora vestida da cabeça aos pés, só lhe via os olhos.

Muito carinhosamente, ela perguntou se era a primeira vez e se tinha alguém próximo infetado. Eu disse que sim era a primeira vez que fazia o teste e que o meu marido tinha testado positivo há 2 dias atrás.

Sentei-me na cadeira e penso que instintivamente puxei a cabeça para trás à espera que ela colocasse aquele cotonete gigante.

Ela corrigiu-me de imediato e disse que a cabeça tinha de ficar direita. Pediu-me para respirar fundo, inspirar e expirar.

Foi o que fiz. De repente um lado já estava, faltava o outro, voltei a usar a respiração para aguentar aquele teste.

Já estava, agora era assinar e aguardar pelo resultado.

Chegaram os resultados do teste à covid-19

Eram umas 17h30 desse sábado quando o meu filho me pergunta se vi o mail e se já tinha o resultado dos testes. E tinha mesmo.

Tinha apenas 2 mails, faltava um terceiro. Juntámo-nos no hall de entrada, cada um à porta do quarto. O meu estava positivo, o da minha filha negativo e o terceiro mail chegou mais tarde e o meu filho também estava negativo.

Portanto haviam 2 pessoas infetadas e 2 pessoas não infetadas.

Liguei para a saúde 24 a dar conta do meu teste e à espera de novas instruções, disseram-me que podia ficar junto do meu marido, mas os filhos tinham de ficar isolados 14 dias.

10 dias com covid-19

Nos primeiros dias, posso dizer que estive bem, alguma dor de cabeça, vomitei uma vez e nunca tive febre.

Recebi um do Ministério da Saúde para aceder a um site e ir colocando sintomas e febre.

Todos os dias ia lá fazer isso. 

Já no caso do meu marido foi muito diferente. Ele teve dores no corpo, falta de paladar, febre e dores de cabeça.

Só podia tomar paracetamol e ele tomou vários, estava sempre a contar as horas para poder fazer a próxima toma.

A ele ligaram-lhe algumas vezes, a mim nem por isso.

A médica de família começou a ficar preocupada com os sintomas do meu marido e disse que ele devia ir ao hospital para fazer testes e despistar uma possível infeção nos pulmões.

Aqui sim, entrámos em pânico. Como assim ir ao hospital? Eu não podia levá-lo porque estava obrigada a ficar em casa e não íamos colocar a família ou amigos em risco de ficarem infetados com uma possível viagem ao hospital.

No dia seguinte, a médica volta a insistir, é melhor o senhor ir ao hospital e ele respondeu que não tinha como ir. Ela sugeriu ligar para o Inem e pedir um ambulância.

Eu liguei para o Inem que me despachou imediatamente, eles só tratam de urgências muito graves e não de um simples transporte ao hospital.

Estávamos cada vez mais confusos.. mas a médica disse...

O Inem disse que tinha de ser os bombeiros da zona de residência a tratar do transporte. Liguei para os bombeiros e perguntei como seria e qual o custo.

Como não sou sócia, são 70 euros para lá e 70 euros para cá. Um total de 140 euros.

A brincar (ou talvez não), o meu marido disse que já se sentia melhor e que não era preciso nenhuma ambulância.

Mal sabia eu que depois de um duche ele esteve quase a desmaiar, não me disse nada, apenas deitou-se na cama.

Quando finalmente acordou, disse-me que tinha-se sentido mal depois do duche, mas que agora já estava muito melhor.

E realmente nos dias seguintes, ele foi melhorando.

10 dias depois tivemos alta

Que bom, finalmente chegou o dia em que me ligaram a dizer a senhora tem alta.

Na altura nem me lembrei de perguntar se era preciso fazer algum teste, no entanto ao fazer pesquisas percebi que 10 dias após o teste positivo já não se contagia ninguém e por isso dão alta.

Claro que a primeira coisa que fizemos foi abraçar os nossos filhos, que saudades...

Nesse dia, eu e o marido fomos fazer o passeio higiénico e que bem que soube uma caminhada.

Os nossos filhos ainda tiveram mais uns dias em isolamento, mas depois também poderam sair.

Depois da covid

Acho que uma pessoa depois de ter covid acaba por pensar de outra maneira. Continuam a haver pessoas à minha volta que acham que nunca vão apanhar o covid porque protegem-se muito bem ou até outra que começaram a falar de forma diferente após o covid passar por sua casa.

Oiço pessoas que dizem, "a minha família é saudável e temos cuidado", quando eu sei que depois vão para almoçaradas com amigos.

O covid pode acontecer a qualquer um e ninguém está livre de o apanhar.

Depois venho a saber de pessoas que falam nas minhas costas e olham de soslaio: "ela teve covid", como se tivesse sido a peste negra. 

Por isso, sim, eu tive covid-19 e sobrevivi mas não sou diferente de ninguém. O vírus entrou na minha casa, mas já saiu.

Sou uma sobrevivente, com muito gosto. E se fosses tu que falas de mim nas costas?

Não desejo mal a ninguém, mas afasto quem me quer mal.

Adeus covid.

 

 

 

14
Jun20

Fui ao hospital no meio desta pandemia… mas correu tudo bem

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Tenho estado a contar os dias que estou em casa. Já são 96 dias. Felizmente, tenho a sorte de poder estar em teletrabalho e assim conseguir estar também com os meus filhos.

Há uma semana atrás comecei a sentir umas comichões na zona genital, o marido também comentou que sentiu o mesmo e estava já a colocar um creme. Aconselhou-me a por o mesmo creme, mas eu fui piorando e ele foi melhorando.

Passados uns dias, já estava mesmo incomodada e desconfortável, decidi ver se conseguia uma teleconsulta com um ginecologista, não queria mesmo ir a uma consulta presencial e correr o risco de apanhar o vírus mais famoso do mundo. Infelizmente, no meu seguro não havia teleconsulta de ginecologia, apenas de clínica geral.

Achei que devia tentar na mesma e este foi o meu erro. A médica que me ligou no dia seguinte para fazer a teleconsulta associou a comichão a herpes genital e disse-me para tomar uns comprimidos caríssimos: 28€ cada caixa. Como ela queria que tomássemos os dois, paguei 56€ na farmácia.

Na sexta-feira comecei a tomar os tais comprimidos, de 12 em 12 horas, mas em vez de melhorar, estava a piorar e tinha agora novos sintomas: a minha zona genital estava muito vermelha e inchada. Vi logo aqui que tinha cometido um erro tremendo ao ter sido teleconsultada por uma médica de clínica geral e agora tinha de corrigir este problema.

De sábado para domingo não consegui dormir nada e quando o marido acordou contei-lhe o que se passava comigo e ele disse logo: “queres ir ao hospital?” Querer eu não queria, mas sabia que tinha mesmo de ser observada.

A ida para o hospital

Lá fomos os dois juntos para o hospital, fui à cuf descobertas em Lisboa e no caminho disse ao marido que acordei os miúdos para lhes dar um beijinho e os pôr ao corrente da situação.

Claro que na minha cabeça quando tenho de ir ao hospital uma pessoa nunca sabe como vai correr… imaginei logo que tinha de ficar internada ou coisas piores…

Quando chegámos à porta do hospital o segurança informou logo que o marido não podia acompanhar-me e ainda por cima ele tinha-se esquecido do telemóvel em casa e eu não tinha como o contactar. Mas tentei manter o espírito positivo e pensar que não ia demorar muito.

Não foi bem assim, entrei cerca das 8h30 e saí às 10h30.

Sozinha no hospital

O segurança disse-me que não podia usar a máscara que tinha trazido, tinha de ser uma esterilizada e ele deu-me logo uma.

Lá fui eu sozinha, a caminho das urgências, apenas com os meus pensamentos.

Cheguei à entrada e estava tudo diferente. Antigamente bastava escolher urgência de adulto e saía logo um papel com o meu número.

Desta vez, tive de parar um pouco para ler aquelas instruções. Tive de colocar o meu cartão do cidadão e depois escolher as urgências de adulto ou ginecologia. Tive aqui alguma dúvida, sabia que era ginecologia, mas achei que deveria fazer um exame para descartar a infeção urinária.

Escolhi a urgência de adulto e o tal ecrã perguntava-me se queria que imprimisse o papel com o meu número ou se queria receber o número no meu telemóvel. Gostei da inovação e escolhi receber o sms.

Como era tão cedo, não vi muitas pessoas, havia muito desinfetante e fui usando sempre que podia. Embora não me saísse da cabeça aquela mão do segurança que me deu a máscara…

Na recepção informaram-me que tinha de pagar 8€ pelos custos da desinfeção e higiene e se fizesse o teste da covid-19 o custo poderia ir até aos 100€. Eu não estava ali por esse motivo, mas eles eram obrigados a dar-nos essas informações.

Ainda estava a fazer a inscrição e já tinha uma enfermeira a chamar-me para a triagem. Olhei para ela e disse “ainda estou aqui”. E ela respondeu “quando sair daí, venha cá ter”. A enfermeira tirou-me a febre, mas não me disse qual era o valor e perguntou-me qual era o problema. Depois de explicar tudo, encaminhou-me para uma sala de espera.

Aí estava apenas uma senhora e os bancos estavam marcados com um X, os que não estavam marcados era onde eu me podia sentar, sempre com a devida distância.

Não demorou muito para ser chamada por um médico da urgência, muito simpático e atencioso.

Contei-lhe novamente a história e ele perguntou se eu tinha febre. Eu disse que a enfermeira tirou-me a febre mas não me informou da mesma. Ele verificou e nada me disse também. Sinceramente eu nem estava interessada em saber, eu estava ali por outro motivo, para mim, muito mais importante.

Este médico pediu-me para fazer o exame à urina para despistar a infeção urinária e depois iria para o 2º andar de ginecologia para ser observada por um médico da especialidade.

Esperei novamente na sala de espera que tinha as marcas com o X, fui chamada para fazer o exame à urina e depois tinha de aguardar novamente para ser chamada para ir à ginecologia.

Finalmente, chegou uma auxiliar ou enfermeira e levou-me a mim e à outra senhora para o 2º andar. Quando chegámos lá, fomos para uma sala de espera onde estava um casal com um bebé recém nascido que não parava de chorar. Eu confesso que até gostei e acho que até tive saudades de ouvir o choro de um bebé.

Um médico apareceu com duas fichas na mão, chamou o nome da outra senhora e o meu e pediu-nos para o seguir. A senhora foi para um gabinete e eu acompanhei este médico ao seu gabinete. Quando lhe contei a minha história (mais uma vez), ele achou tudo muito estranho e pediu-me para despir para ele ver o que se passava. Disse de imediato que não era herpes genital e até fez questão de me mostrar umas fotos na internet, que me deixaram aliviada por saber que não tinha nada assim.

Afinal era uma candidíase, muito comum nas mulheres, que pode ter aparecido por estar muito tempo sentada, por causa do calor que se sentiu ou por usar roupa apertada. Passou-me uma receita médica e disse que ia melhorar rapidamente.

A saída do hospital

Já de receita na mão, estava bastante aliviada por já ter passado a parte pior e agora só faltava pagar e ir ter com o marido que já devia estar preocupado. Na recepção perguntaram-me se tinha feito o teste à covid e eu disse logo que não.

Saí da porta das urgências e parece que senti um vento a refrescar-me e a acalmar-me, estava tudo bem.

A caminho do carro comecei a ouvir um “Pssst, psst”, olhei para cima e lá estava o meu marido do lado de fora do muro do hospital a sorrir para mim. E eu estava tão feliz por o ver e por sair dali o mais depressa possível.

Moral da história

Acho que aprendi que devo confiar mais nos meus instintos e devia mesmo ter consultado logo um ginecologista em vez de um médico de clínica geral.

Aprendi também que sempre me senti segura naquele hospital, fui bem tratada, bem aconselhada e apesar de toda a gente querer estar longe de hospitais, às vezes temos mesmo de ir… pela nossa saúde.

 

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